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Produtos (e ideias) sustentáveis

Edição: 07/2010

Redesign, reuso, pós-uso e durabilidade. São esses alguns dos novos conceitos que povoam cabeças de empresários e profissionais da criação nos dias de hoje, no momento de desenvolver um novo produto. A regra geral agora é ser sustentável, ao contrário da mentalidade reinante no século passado, marcado pelo sucesso do American way of life, que apontava o consumo como caminho para o status e felicidade.

Um novo século começou e, com ele, a constatação de que esse consumismo exagerado não apenas resultou em crise financeira mundial, como também está colocando nosso planeta em risco, ao produzir cenários de aquecimento global, efeito-estufa, crescimento dos lixões e esgotamento dos recursos naturais. A surpresa nesse processo foi que esse quadro sombrio produziu um efeito positivo sobre pessoas de todo o mundo, que passaram a buscar um novo estilo de vida, que gere menos impactos ao planeta.

Para ter ideia do tamanho desse movimento, em Curitiba, os irmãos Adélio Alves e Adeilde Alves, mais conhecidos como Small e Didus, inventaram até móvel feito de papelão. É isso mesmo, trata-se da Paper Art, empresa que nasceu a partir da evolução de técnicas que os dois já usavam para fazer protótipos, caixas e portfolios para agências de publicidade. Em um primeiro momento, retalhos produzidos nesse trabalho foram usados para fazer pequenos objetos, como quadros e luminárias. Daí foi um passo para aprimorarem as técnicas e apostarem em objetos maiores, como mesas, cadeiras e armários, entre outros móveis.

“Nosso conceito é em torno do pós-consumo, queremos fazer um produto que seja fácil de reciclar, que dissolva na natureza quando acabar seu uso”, explica Small. Para isso, eles tiveram que pesquisar novas técnicas, que garantissem resistência e durabilidade aos objetos, sem deixar de lado um design atrativo para decoração. Foi assim que chegaram em móveis feitos a partir da técnicas de aplicação do papelão ondulado, que atinge uma resistência semelhante à de madeiras como o mdf. Revestimento final feito com papéis especiais, artesanais e reciclados e tecidos 100% algodão, cola e verniz, à base de água, garantem produtos 100% biodegradáveis.

Os móveis coloridos e de design arrojados, por enquanto, têm lugar garantido apenas no mundo corporativo, sendo usados em estandes e eventos. Sem produção em escala, apenas alguns amigos e clientes adquiriram as peças pelo site da empresa. Didus reconhece que é uma quebra de paradigma. “As pessoas têm medo de sentar nas nossas poltronas, elas acham que o que é reciclável não é durável”, diz.

A designer Sonia Knopik, proprietária da Ecofábrica, pequena empresa focada no ramo de brindes e presentes corporativos feitos de material reciclado, concorda. “As pessoas têm preconceito com produto reciclado, pensam que se veio do lixo é de qualidade inferior, acham que devia ser mais barato”, diz.

A Ecofábrica surgiu em 2001 dentro da incubadora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), que decidiu apostar em um projeto da recém-formada, interessada em “aliar conhecimentos de design e meio ambiente na criação de agendas feitas de papel reciclável com capa de lona removível, de modo a não misturar as duas matérias-primas, dificultando seu destino final.

Depois da lona de caminhão, vieram outros materiais reciclados, como papéis, plástico de garrafas PET e sobras de couro, usados em uma extensa linha de produtos, que inclui bolsas, sacolas, pastas, mochilas, cadernos, agendas, crachás, chaveiros, canetas e produtos de escritório. Mais recentemente, a empresa passou a reaproveitar a lona vinílica usada em banners e toldos para confeccionar sacolas. Aprimorando técnicas, desenvolveu, ainda, a primeira caneta feita com plástico PET reciclado, chamada de Caneta Ecológica EcoPet.

Hoje a Ecofábrica tem uma equipe de 15 funcionários e uma clientela que reúne grandes empresas nacionais do setor privado e público, como Caixa Econômica, Coca-Cola, Itaipu e Kraft, só para citar algumas. O próximo passo, este ano, será mudar da sede atual, no bairro Portão, na Capital, para um local maior. “Aos poucos, estamos mostrando que com tecnologia aplicada o produto reciclado pode ser tão bom quanto outro de matéria-prima virgem”, afirma.

A Forplas, empresa que há mais de 50 anos fabrica escadas em Curitiba, é outra pequena empresa a apostar na produção sustentável. A ideia surgiu a partir de um problema: o que fazer com o amontoado de tocos de madeira, pelo menos 10 metros cúbicos do material, que sobravam todo mês da produção das escadas? Durante mais de 40 anos, a única solução era pagar para a retirada do “lixo” do pátio.

“Começamos a pensar, será que não dava para termos uma outra linha e até gerar emprego com isso?”, lembra Giancarlo Stahlke, um dos sócios da empresa. Veio, então, a ideia de montar novas placas de madeira, a partir dos tocos prensados e colados com cola atóxica, para fazer novos produtos. Amigos e a própria fábrica foram cobaias para as primeiras peças, até que, há quatro anos, o designer e cliente da loja, Paulo Dias, veio se somar à equipe.

Hoje, os resíduos são criteriosamente selecionados, para se transformarem em cadeiras, mesas, biombos, treliças e redes de madeira, seu item mais vendido.

A criação fez sucesso. Além da linha vendida direto na fábrica, localizada no bairro Água Verde, a fábrica tem contratos com duas grandes lojas de móveis, a Desmobilia, com sede em Curitiba, e Futton Company, de São Paulo, para desenvolver peças com exclusividade. Em novembro, o banco Maak, desenhado por Paulo Dias, e que homenageia o ambientalista Reinhard Maak, defensor da mata das araucárias do Paraná, foi um dos vencedores na categoria Produtos de decoração do Prêmio Planeta Casa 2009, concedido pela Revista Casa Cláudia, da Editora Abril.

A produção ainda é pequena. A Forplas tem, hoje, 33 funcionários e produz 12 mil escadas por ano, sendo que a linha de móveis representa apenas 5% do faturamento. Mas a intenção, segundo Stahlke, é aumentar essa participação. Para isso, a fábrica está à procura de lojas interessadas nesse perfil de produto.

O perfil de produto ecológico, aliás, é amplo. Uma das iniciativas mais interessantes vem do designer de joias Rodrigo Alárcon, que expõe na joalheria que leva o seu nome, em uma galeria do Batel, também em Curitiba, peças feitas a partir de uma diversidade de materiais, que de certa forma rompem com o conceito tradicional sobre o que é uma joia. “As pessoas acham que joia é feita em ouro e diamante. Hoje isso é muito mais amplo”, declara.

Para começar, a principal matéria-prima usada por ele é a prata, material que é totalmente obtido a partir da purificação de chapas de raio-x, por uma empresa que compra o material de hospitais e retira a prata. As chapas de acetato, por sua vez, são encaminhadas para indústrias de embalagens e capas de caderno.

A natureza é sua grande inspiração. Nos colares, broches, brincos e tiaras, ele pode usar gemas orgânicas (de origem vegetal ou animal) ou inorgânicas (minérios). Junto, usa e abusa de materiais como fibras vegetais, couro, osso e chifre de boi - subprodutos da agropecuária - casca de ovo de avestruz, e uma de suas marcas registradas, as pérolas e madrepérolas que, segundo ele, são um dos materiais “mais ecologicamente corretos”, uma vez que são gerados pelo cultivo da ostra.

“Gosto mais de trabalhar com materiais orgânicos, que têm uma linguagem mais interessante, essa deformidade deles tem um efeito bem plástico”, afirma. Ele ressalta, no entanto, que o uso desses materiais requer pesquisas para que sejam desenvolvidas técnicas de como melhor aproveitar cada um deles.

Ainda na linha de sustentabilidade, Rodrigo aposta na reforma de joias. “Se o cliente tem uma joia que não usa mais, é possível dar um novo uso, reutilizando as pedras, o metal”, diz. Pedras podem ser relapidadas, formas podem ser refeitas. Nessa customização, ele já chegou a usar cacos de porcelana de um bule de estimação, que era da avó de uma cliente, que foram transformados em pingentes e presenteados para cada membro de uma família.


Design
Menos é cada vez mais para a criação de produtos. O desafio para profissionais de design, hoje, é trabalhar com o redesign, ou seja, desenvolver produtos que não gerem resíduos para o ambiente. Maior desafio, ainda, está em se pensar em novos produtos, que consumam menos energia, menos matéria-prima, menos insumos, em substituição aos atuais.

“Esse processo é lento, o empresário não vai jogar fora o projeto que ele tem hoje, mas é preciso pensar em mudanças no estilo de vida atual”, diz o professor de Design de Produtos da Universidade Positivo e mestre em gestão Ambiental, Alexandre Marinho. Na busca pela sustentabilidade, segundo ele, o meio acadêmico trabalha com conceitos para cenários futuros.

A tendência é que os produtos voltem a aumentar seu ciclo de vida. Isso significa que devem trilhar o caminho inverso dos últimos anos e tornarem-se mais resistentes, de modo a que “permaneçam mais tempo em cima da terra e não embaixo dela”. Ao perderem utilidade, terão outra função.”Um monitor de tevê vira aquário, uma garrafa vira vaso”, diz. Por último, os materiais serão reciclados.

Mas não adianta, segundo ele, pensar apenas em novos produtos, se não houver uma mudança também no estilo de vida das pessoas. Na linha da sustentabilidade, o cenário ideal, de acordo com ele, seria um estilo de vida que consumisse 90% menos do que os moldes atuais. Assim, em vez de vender produtos, as empresas iriam oferecer serviços. “Em vez de cada um comprar uma bicicleta, por exemplo, o condomínio teria cinco bicicletas para serem usadas por todos. Ou a própria Caloi iria ganhar com a prestação de serviços e não com a venda”, explica.


Atitude
No comércio varejista, os consumidores começam a dar sinais que estão atentos aos produtos sustentáveis. Atualmente, o consumidor está mais preocupado com os produtos que consome, a procedência, a matéria-prima utilizada e o que fazer para se desfazer deles, quando não mais for utilizá-los.

A afirmação é da consultora do SEBRAE/PR, Walderes Bello. “Como o varejo está na posição intermediária entre indústria e consumidor, cabe a ele comunicar ao cliente a origem dos produtos, bem como o melhor uso e a forma de descartá-los, observando os cuidados na preservação do meio ambiente.”

“Assim, antecipando-se a essa tendência cada vez mais confirmada nos dias de hoje, o varejo já responde com ações que vão desde apenas oferta de produtos ecologicamente corretos até a transformação do ponto de venda em um espaço de respeito ao meio ambiente, utilizando embalagens recicladas e retornáveis, usando racionalmente os recursos de energia, água, dentre outros, encaminhando corretamente os resíduos produzidos pelo seu negócio, desenvolvendo campanhas educativas entre funcionários, clientes, moradores e muitas outras ações.”, diz Walderes Bello.

Para a consultora do SEBRAE/PR, os acontecimentos recentes - terremoto, enchentes, desmoronamentos - que chocaram o mundo, diante de tamanha destruição e abalo na sociedade e que atinge indiscriminadamente a todos - pobres e ricos - fazem as pessoas refletirem no que estão contribuindo para reverter essa situação. “Essas tragédias, próximas ou não de nós, dão início a movimentos de mudança nos comportamentos que são necessários e urgentes: o consumidor adotando o comportamento de um consumo mais consciente, tanto na escolha criteriosa do que consumir, como na quantidade efetivamente necessária; a indústria começando a caminhar para a busca de soluções para produzir produtos, que sejam adequados a essa nova realidade; e o varejo, parte dessa cadeia produtiva, inicia um processo de disseminação de práticas sustentáveis que ajudam a melhorar a realidade onde está inserido.”

Ao atender bem o cliente, na opinião de Walderes Bello, a equipe de vendas já está fazendo uma ação de sustentabilidade, uma vez que faz parte desse bom atendimento oferecer informações do melhor uso do produto, da preservação e manutenção dele, assim como orientações sobre a forma correta de descartá-lo. Dessa forma, treinamentos dirigidos ao conhecimento do produto e entendimento sobre sustentabilidade são ações que devem estar inseridas num programa de sustentabilidade que as empresas possam desenvolver.

“A loja como um todo pode, aos poucos, ir se transformando, otimizando os recursos disponíveis e implantando ações para a melhoria e preservação do meio ambiente. Com um mix de produtos ecológicos e não ecológicos, a loja pode dar um destaque especial, assim como faz quando elabora promoções por preço, lançamentos, dentre outras ações.” Ao destacar esses produtos em prateleiras ou em ilhas dentro da loja, diz a consultora do SEBRAE/PR, a comunicação também deve ser bem elaborada, oferecendo informações que auxiliem o consumidor na escolha do produto. Isso pode se repetir também para outras ações, como o uso racional de energia elétrica, captação e uso de água, a coleta seletiva, o uso de embalagens de material reciclado ou retornáveis.

“Dessa forma, a empresa comunica ao cliente, de diferentes formas, a sua preocupação e consciência em estabelecer uma relação de confiança e de respeito para com o consumidor e para com o ambiente onde está inserido.”


* Texto produzido pela jornalista Maigue Gueths para a Revista Soluções, publicação do SEBRAE/PR.


Para saber mais sobre produtos sustentáveis, leia os livros “Haverá a idade das coisas leves”, organizado por Thierry Kazazian e “O desenvolvimento de Produtos Sustentáveis”, de Ezio Manzini e Carlo Vezzoli.


Fonte/ Texto: Revista Soluções

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Comentários (9)

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estou precisaNDO comprar radiografia reciclada limpa para fazer molde vazaos
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 Olá, boa tarde!

Obrigada por comentar. Você sabe qual é o seu perfil empreendedor? Faça o teste agora mesmo e descubra, acesse: www.perfildoempreendedor.com.br
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Boa tarde,trabalho em uma empresa no setor de saude e temos um numero grande de chapas de rx prescisamos reciclar mas não sabemos a quem procurar,voçês podem nos ajudar?
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quero saber se vcs oferecem algum curso de artezanato e reciclagem
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Olá Rosimeire, bom dia!! Obrigado pelo comentário. Acesse nosso portal e veja nossos cursos e palestas. http://portal.pr.sebrae.com.br/ Se preferir entre em contato com a nossa central ee relacionamento 0800 570 0800. Obrigado e sucesso!!
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Achei ótima, será que algum dia os governantes vao aderir essa açao de sustentabilidade,porque tem que começar por eles, nao aceitando que grandes empresas se instalem em nossas cidades,sabendo que na bagagem que trazem é um vilão, destruidor do meio ambiente. Como vai ficar o futuro, se agora no presente sestamos presenciando os grandes impactos na natureza, o que será feito? ainda há tempo? cada dia que passa o calor aumenta mais, o que é isso, passear em dia ensolarado esta sendo um grande desafio.
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Olá Evanildes, boa tarde! Obrigado pelo comentário. Tenha um ótimo final de semana e sucesso!
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Moro em Niteroi, no Estado do Rio de Janeiro e estou reformando minha casa. Preciso de treliças para algumas áreas externas e gostaria de usar materiais recicláveis. Voces tem representantes no Rio de Janeiro que possam me atender?
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Onde posso destinar chapas de raio xis para reciclar em Belo Horizonte
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bom dia eu sou um empresario sustentavel da Alemanha e gostaria ter contatos com empresas en Curitiba que trabalhan com lona de caminhao reciclado, produtos chapeus, bolsas jaquetas, calcas etc. por favor me manden enderecos. sds Hermann Klinger
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Bom dia! Gostaria de saber onde encontro prata reciclada de chapas de raio X, para comprar. Moro em Belo Horizonte. Obrigado. Ricardo
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ola! gostaria de saber se voces tem alguma empresa que usa lona vinilica,lona de outdoor, para fazer sacolas reciclaveis ou algo parecido. como entro em contato. obrigada , no aguardo Micheli

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